sábado, 29 de agosto de 2009

AS HIPÓTESES DE LEITURA E ESCRITA

AS HIPÓTESES DE LEITURA E ESCRITA: UMA FORMA DE COMPREENDER PORQUE E COMO A CRIANÇA APRENDE

Texto elaborado por Luciana dos Santos Tapajós da Costa


O professor alfabetizador deve ter conhecimento de que nossa língua envolve fonética e escrita, percebendo o sentido e o som das palavras. Neste sentido, Vygotsky (1984) destaca que “os gestos são escritas feitas no ar, e os sinais frequentemente são simplesmente gestos que foram fixados no papel”.
Na verdade, a escrita de uma criança muito pequena é uma conseqüência de seus atos infantis. Ela acredita que escreve, porém o adulto muitas vezes só vê o rabisco ou um amontoado de letras, sem se dar conta de que a criança está construindo seu processo de aquisição do código escrito. Entretanto, o professor alfabetizador, jamais pode ter essa visão, de que os desenhos ou rabiscos são apenas rabiscos e nada mais. O professor alfabetizador precisa ter em mente que a criança entra em contato com o mundo da escrita antes mesmo de saber ler convencionalmente e elas já atribuem significados a coisas que estão escritas, a partir do que já conhecem.

Emília Ferreiro e Ana Teberosky desvendaram os mecanismos pelos quais as crianças aprendem a ler e escrever, levando muitos educadores a reverem seus métodos. De acordo com elas, a criança estabelece muito cedo, hipóteses em relação à escrita (primeiro acha que podemos ler desenhos; depois percebe que as letras existem para esse fim; e por último compreendem como usar essas letras para escrever). Em sua obra Psicogênese da Língua Escrita, não apresentam nenhum método pedagógico, mas revelam os processos de aprendizagem das crianças. Segundo Telma Weisz, “a história da alfabetização pode ser dividida em antes e depois de Emília Ferreiro e Teberosky”.

Os estudos de Emília Ferreiro e Ana Teberosky tornaram possível uma nova visão a cerca da alfabetização. Tanto as descobertas de Piaget como as de Emília Ferreiro e Ana Teberosky levam a conclusão de que as crianças têm um papel ativo no aprendizado, construindo seu próprio conhecimento.
Para Emília Ferreiro, a construção do conhecimento da leitura e da escrita tem uma lógica individual e de interação social, tanto na escola, como fora dela. Nesse processo de construção, a criança passa por etapas nas quais irá avançar e até mesmo recuar, até que ela consiga se apossar e dominar o código lingüístico. E quanto ao tempo necessário para que cada criança transponha cada uma das etapas, varia muito. Sendo assim, a construção do conhecimento ocorre por meio das seqüências de hipóteses.
Dessa forma toda criança passa por quatro fases ou níveis até que esteja alfabetizada: Pré-silábica (nível I – pictórico e ideográfico; nível II), Silábico – sem valor sonoro e com valor sonoro, Silábico-alfabético e Alfabético.


PRÉ–SILÁBICA


Não consegue relacionar as letras com os sons da língua falada, esta fase pode-se dividir em dois níveis: Nível I e Nível II;
O Nível I pode ser:
• Pictórico onde ocorrem na escrita as garatujas ou os rabiscos (desenhos sem figuração);
• Ideográfico em que a criança usa desenhos para representar palavras.

O Nível II – é onde a criança:
• Escreve diversas letras para representar palavras.;
• Ela percebe que para escrever precisa de letras;
• Sua escrita não tem relação com a sonoridade;
• A ordem das letras não tem importância;
• Para ela a escrita não pode conter menos que três ou quatro letras;
• Sua leitura é global;
• Nesta fase pode ocorrer o “Realismo Nominal”, ou seja, associa o tamanho da palavra ao tamanho do objeto. Exemplo: A criança acredita que para escrever “ELEFENTE” ela precisa de muitas letras, por que o elefante é grande, e para escrever “FORMIGA” ela precisa de poucas letras, por que a formiga é pequena;

SILÁBICA

• Interpreta a letra a sua maneira, atribuído valor de silaba a cada uma;
• É nesta fase que a criança percebe que não precisa de um monte de letras para cada palavra escrita. Mas às vezes coloca letras entre as sílabas que são chamadas de “almofadas” (no meio da palavra) ou “sobrantes” (no final da palavra) talvez para ficar “mais bonito”. Exemplo: UAX (uva)
• As vezes pode usar uma letra para representar cada palavra na frase, pois para a criança nesta fase a “sílaba” é a menor unidade da escrita, na frase a menor unidade é a “palavra”.
• Esta hipótese pode se dividir em dois níveis: Silábico Sem Valor Sonoro e Silábico Com Valor Sonoro.
• Silábico Sem Valor Sonoro a criança relaciona a escrita e a fala, para cada vez que pronuncia uma sílaba, ela escreve uma letra, porém essa letra (grafema) não tem relação com o som (fonema). Exemplo: XLH (cavalo);
• Silábico Com Valor Sonoro, usa uma letra para cada vez que pronuncia uma sílaba, mas desta vez faz relação com o fonema (som). Exemplo: CVL, CVO, AAO ou AVL (cavalo).
• Na hipótese silábica com valor sonoro, pode surgir a falha na alfabetização, a criança pode ser “vocálica” (iniciou a alfabetização a partir das vogais, exemplo: escreve AAO - cavalo) ou “consonantal” (iniciou a alfabetização a partir das consoantes, exemplo: escreve CVL - cavalo).

SILÁBICO-ALFABÉTICA

Esta é a hipótese intermediária em que a criança ora escreve silábicamente, ora alfabéticamente, ou seja, mistura a lógica da fase anterior com a identificação de algumas sílabas. Exemplo: escreve SAPT – sapato.

ALFABÉTICA

• Toda criança nesta hipótese é sonora;
• Domina a maioria das letras do alfabeto, apresentando apenas dificuldades na ortografia;
• Domina, enfim, o código escrito, distinguindo letras, sílabas, palavras e frases.
O princípio de que o processo de conhecimento por parte da criança deve ser gradual, corresponde aos mecanismos deduzidos por Piaget, segundo os quais cada salto cognitivo depende de uma assimilação e de uma reacomodação dos esquemas internos, que necessariamente levam tempo.
A alfabetização é um processo continuo construído ao longo do desenvolvimento da criança é a ação de ensinar, ou aprender a ler e a escrever, estando intimamente ligada aos conhecimentos da leitura e escrita.
Ao organizar atividades que favoreçam a aquisição da leitura e da escrita, o alfabetizador deve buscar conhecimentos teóricos nos estudos de Emília Ferreiro e Ana Teberosky em “Psicogênese da Língua Escrita”, para que possa compreender que saber ler não é apenas conhecer o sistema alfabético da língua escrita, mas é também saber ler de forma critica, reconhecendo diferentes tipos de textos.
O professor envolvido no processo de aquisição da língua escrita precisa construir um ambiente alfabetizador, isto significa possibilitar ao aluno o contato com a diversidade de textos presentes no dia-a-dia e utilizar a escrita de maneira crítica e ativa na alfabetização.

Como realizar o levantamento


Visto que o objetivo da avaliação é diagnosticar o que a criança é capaz de resolver sozinha ou fazer o levantamento do conhecimento já construído por ela. Essas investigações permitem ao professor atuar como mediador no processo ensino-aprendizagem e fornecer pistas para que a criança se torne alfabética. Nesse processo, a sondagem diagnóstica é atividade essencial, que capacita o educador a conhecer as hipóteses das crianças envolvidas no processo de alfabetização (pré-silábico, silábico, silábico-alfabética e alfabético).
Para realizar a sondagem escolhem-se quatro palavras (uma polissílaba, uma trissílaba, uma dissílaba e uma monossílaba, nessa ordem) e uma frase de um mesmo campo semântico (do mesmo assunto). Por exemplo: dinossauro, cavalo, gato e rã; O gato é meu.
Pede-se para que a criança escreva do jeito que souber. As palavras serão ditadas pausadamente sem dizer quais são as letras. Se ela perguntar como se escreve, devolva a pergunta: como você acha que é que se escreve? Até que ela escreva como acha que é a palavra, elogie seu esforço.
O professor pode pedir a criança que ainda não identifica s letras que faça o desenho. É importante pedir para que ela leia individualmente cada palavra que escreveu, apontando as letras e sinais correspondentes a fala.
Observar e anotar em um caderno o jeito que leu e escreveu, se identifica letras? Identifica sílabas? Confunde letras com números? Sabe fazer as letras? Associa o som a letra? Etc.
Outro elemento importante que pode servir como sondagem é a escrita de textos espontâneos (escrever uma história, uma música, etc, como souber).
A parti do material investigado em uma sondagem, pode-se refletir sobre o pensamento da criança e perceber sua hipótese lingüística: pré-silábica, silábica, silábico-alfabética, ou alfabético. Isso permite a formação de grupos heterogêneos e proposta de atividades diversificadas, cujo objetivo é a desestruturação da hipótese que a criança tem a respeito da linguagem escrita, bem como a construção de uma nova hipótese, culminando na reconstrução do código lingüístico.
Uma das formas para se contribuir para esse trabalho é utilizar jogos, porque jogando se aprende a fazer de conta, representar uma coisa por outra, criar códigos, perceber as letras. Percebe-se o valor sonoro convencionalmente e reconstrói o código lingüístico.
Os testes devem ser realizados periodicamente, desde a entrada do aluno na escola, depois uma vez por mês ou uma vez a cada bimestre e ao término do ano letivo. Os resultados são comparados com a sondagem anterior, para constatar os avanços.

Referencial Bibliográfico


PIAGET, Jean. Formação do Símbolo na Criança: Imitação, Jogo, Sonho e Representação. Trad. Por Álvaro Cabral, 2.ª Ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1975.

FERREIRO, E; TEBEROSKY, A. Psicogênese da Língua Escrita. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985.

BRASIL. Secretaria de Ensino Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: língua Portuguesa. Brasília: MEC,1996.

KISHIMOTO, Tizuko Morchida (org.). Jogo, Brinquedo, Brincadeira e a Educação. 2.ª Ed. São Paulo: Cortez, 1997.

VYGOTSKY, Lev. A Formação Social da Mente. São Paulo: Martins Fontes,1984.

COSTA, Marta Moraes. O Professor e a Leitura, a Semeadura no Campo da História. Revista Aprende Brasil. Curitiba: Positivo. Ano II, n.º 9. Fev / Mar. de 2006.

 
OS NÍVEIS DAS HIPÓTESES LINGÜÍSTICAS




PRÉ-SILÁBICO I
• Não estabelecem vinculo entre fala e escrita;
• Supõem que a escrita é outra forma de desenhar ou representar coisas
• Taíssa é pictórica, pois sua escrita ocorre em forma de rabiscos ou garatujas (desenhos sem figuração);
• Lucas é ideográfico, pois usa desenhos para representar palavras.


PRÉ-SILÁBICO II

• Usa várias letras para representar uma palavra;
• Sabe que para escrever precisa de letras;
• Acha que para escrever precisa de mais de três ou quatro letras;
• Sua leitura é global;
• No caso da Maria apresenta Realismo Nominal (escreve a quantidade de letras de acordo com o tamanho do animal, a formiga é pequena poucas letras, o elefante é grande mais letras). Além de usar as letras do próprio nome na escrita.



SILÁBICO SEM VALOR SONORO
• Usa uma letra para cada vez que pronuncia uma sílaba, porém sem relacionar a letra com o fonema (som);
• Às vezes usa letras “SOBRANTES” e “ALMOFADAS”;
• No caso de Ana ela usa na frase uma letra para representar uma palavra;



SILÁBICO COM VALOR SONORO


• Usa uma letra para cada vez que pronuncia uma sílaba, relacionando letra a fonema (som);
• No caso do Jean ele usa de letras “Sobrantes” (no final da palavra) e “Almofadas” (no meio da palavra);
• Gabriel é vocálico, iniciou sua alfabetização a partir das vogais;
• Júlia é consonantal, iniciou sua alfabetização a partir das consoantes.



SILÁBICO-ALFABÉTICO
• Ora escreve silábicamente, ora alfabéticamente;
• Percebe que o som da sílaba acrescentando letras;
• Ainda em conflito

ALFABÉTICO
• Domina a maioria das letras;
• Apresenta dificuldades ortográficas;
• Distingue letras, sílabas, palavras e frase;
• Lê de acordo com o ritmo frasal;
• Tem domínio do código escrito.